Ester Garcia


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Diretoria do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia - Ano 3 - nº 9
Informativo CardíoLípides

Entrevista – INFARTO DO MIOCÁRDIO EM ADULTOS JOVENS: TEMA DE INTERESSE CIENTÍFICO - Estudo da genética ajuda a tratar as doenças cardiovasculares.

O entrevistado desta edição de Cardiolípides é o cardiologista Marcelo Ferraz Sampaio, doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e médico do Laboratório de Biologia Molecular do Instituto Dante Pazzanese.

Nesta entrevista, Dr. Sampaio fala do trabalho sobre a incidência de infarto do miocárdio na faixa jovem da população, envolvendo estudos genéticos e outros assuntos atuais, revelando importantes informações a respeito de pesquisas de última geração, que envolvem a área de genética aplicada à cardiologia.

Infarto com idade abaixo dos 40 anos, e, depois de uma pesquisa ampla, resolvemos acoplar nossa experiência com a parte genética.
Isso resultou no estudo que ganhou um prêmio internacional em junho de 2005, no Congresso Mundial de Patologia Molecular, com a pesquisa sobre infarto em adultos jovens relacionado com a genética.

DEPARTAMENTO DE ATEROSCLEROSE - Sociedade Brasileira de Cardiologia
1 -Como começaram os estudos que se destacaram no Congresso Mundial de
Patologia Molecular?

Dr. Sampaio - Tudo começou em 1998, quando, de forma pioneira no Instituto Dante Pazzanese, iniciamos o estudo da genética associada às doenças cardiovasculares. Naquela época havia dificuldade em encontrar equipamentos para que pudéssemos ter um estudo efetivo. Mas com o estímulo e o apoio de professores da Universidade de São Paulo, principalmente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, por intermédio do professor Mário Hirata, conseguimos seguir adiante. Começamos a publicar os primeiros estudos e a apresentá-los em congressos, sob a forma de tema livre. Já vínhamos acompanhando pacientes.

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2- Qual a importância dos trabalhos desenvolvidos na área de lípides e genética?

Dr. Sampaio - Obviamente a genética tem amplitude universal.
Exceto alguns traumas, todas as doenças podem ser explicadas por ela, incluindo as dislipidemias. Nessa área houve vários estudos publicados, envolvendo as mutações dos receptores do LDL e na lípase lipoprotéica, análises de ApoA1 e ApoA2 e de polimorfismos da lipoproteína A. Foram estudos pioneiros, feitos no início da nossa trajetória no campo genético. Analisamos polimorfismos isolados, com resultados apresentando reduzido significado em relação à população estudada. Mas, naquela época, ainda estávamos descobrindo a genética. À medida que avançamos, observamos que deveríamos ter feito as pesquisas com associações maiores entre outros genes e polimorfismos mais amplificados para que pudéssemos obter resultados mais significantes. Um exemplo disto é um estudo que obteve grande aceitação e que será publicado na Molecular Genetics and Metabolism, que associa a obesidade com a mutação do gene da leptina, o primeiro desse gênero feito em brasileiros. Nesse trabalho, foram estudadas as mutações associadas ao gene que poderiam induzir a obesidade e aumentar o risco cardiovascular. Também estamos iniciando um estudo sobre diabetes, com grande importância para as dislipidemias. Nesse trabalho avaliaremos numerosos polimorfismos a partir de uma coleta de sangue, e realizaremos biópsias de tecido subcutâneo dos pacientes para cultura de células onde serão analisadas as expressões destes genes. Esse é o estudo mais recente na área de lípides.

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3 -Qual é a relação entre o endotélio e os lípides?

Dr. Sampaio - O endotélio é diretamente associado aos lípides.
Existe uma ligação da lesão endotelial com o processo de aterosclerose, principalmente quando observamos que o endotélio participa diretamente do processo de oxidação das LDL, que, oxidadas, podem induzir as células vasculares a produzir citocinas, promovendo assim o recrutamento de monócitos e sua migração através da parede
arterial. Além disso, as LDL oxidadas ligam-se a receptores específicos, designados receptores removedores, na superfície dos macrófagos, onde elas são “ingeridas” e contribuem para a formação das células espumosas.
Uma vez formadas, as LDL oxidadas exercem uma série de efeitos pró-ateroscleróticos, como a indução do acúmulo de colesterol nos macrófagos e o estímulo à produção endotelial de moléculas de adesão de leucócitos, citocinas e fatores de crescimento, que podem afetar a função endotelial, regular a proliferação de células musculares lisas, além de participar da degradação do colágeno e da trombose. Outra influência prejudicial das LDL oxidadas na função endotelial é sua capacidade de reduzir a vasodilatação endotélio dependente, por inibição da atividade de óxido nítrico sintase e conseqüente redução da biodisponibilidade do óxido nítrico, além de aumentar a produção de espécies reativas de oxigênio (ERO).

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4- Quais os resultados do estudo sobre o infarto em pessoas com menos de 40 anos de idade?

Dr. Sampaio - O que nos intrigava era saber o porquê do infarto em pessoas mais jovens. Algumas peculiaridades aumentavam esse questionamento: o Brasil tem uma das maiores estatísticas de infarto em pessoas abaixo dos 40 anos, de forma inexplicável. Tais estatísticas vêm aumentando com o passar dos anos. Ou seja, estar diante de alguém jovem e com infarto passa a ser algo razoavelmente freqüente.
Desenvolvemos um estudo no qual houve análise da função endotelial através do ultra-som de artéria braquial, e correlacionamos cada passo dessa função com a produção do óxido nítrico.
Analisando a parte genética e correlacionando também com as características bioquímicas, a surpresa foi encontrar, inicialmente,um alto índice de pacientes com HDL-C e ApoA1 baixos e níveis elevados ou maiores que o normal de colesterol total, ApoB, LDL-C, triglicérides, glicemia, ácido úrico e fibrinogênio. Ou seja, todos esses pacientes apresentavam características associadas as dislipidemias que poderiam sugerir algum desequilíbrio metabólico.
Nós tentamos avaliar se esse desequilíbrio ocorreria por alteração da função endotelial estudando a vasodilatação da artéria braquial.

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5-Há alguma novidade nos aparelhos usados no diagnóstico da disfunção endotelial?

Dr. Sampaio -À medida que realizamos exatamente 250 estudos de artéria braquial
para essa tese observamos que, apesar de o exame ser feito com um protocolo muito
rigoroso e ser hoje um recurso propedêutico para pesquisa, a realização técnica é muito difícil e com um tempo bastante prolongado. Hoje existe um aparelho de rápida observação da função endotelial através da leitura digital. Esse equipamento será testado em um grupo de pacientes portadores de disfunção endotelial, e o trabalho, comparado com o ultrasom de artéria braquial. Com um aparelho de fácil execução, onde a função endotelial fica pronta em 15 ou 20 minutos, poderemos difundir o exame e usá-lo para beneficiar pacientes, principalmente no campo da medicina preventiva.

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