
A MEDICINA DA SAÚDE E A MEDICINA DA DOENÇA
Dr. Ricardo Leme – Neurocirurgião e Doutor em Ciências (Neuroregeneração)
A medicina assim como a ciência quando praticadas de forma plena, não lidam com certezas, mas com campos de possibilidades.
Deste modo, hoje conseguimos conhecer muito sobre as doenças, apesar do processo pelo qual as pessoas adoecem permaneça desconhecido em grande parte dos casos.
O cientista pesquisador lida mais com dúvidas do que certezas. Vivemos imersos em um mundo envolto pelo desconhecido e pelo misterioso e hoje se sabe muito sobre pouco e pouco sobre o todo que nos circunda, apesar do desenvolvimento constante de novas tecnologias. A rigor, a atitude de certeza é anticientífica na medida que prende o pesquisador a um modo de explicar a realidade pré-estabelecido, podendo ser um fator restritivo ao encontro de novos modelos de pensar a realidade. Daí surge a necessidade da fé como fator diferencial na formação do cientista. A fé de que possa haver explicações alternativas aos modelos vigentes é o motor do pesquisador para direções ainda pouco exploradas. Por outro lado o cientista que trabalha sobre concepções secularizadas e cristalizadas caminha também, porém numa direção de repetir modelos e fortalecer formas de pensamento que a priori assumem como absolutas ou imutáveis. A dúvida é como uma gestante que antes de dar a luz porta todas as possibilidades, enquanto a certeza é como o nascimento do ser que se é maravilha por um lado, por outro representa a morte de todas as outras possibilidades que existiam durante a gestação.
Os vícios comportamentais do cotidiano das pessoas ficam muito evidentes quando se vê a medicina sob as perspectivas da saúde e da doença. Atualmente a formação médica ocidental favorece o aprender a tratar doenças sendo menos cuidada a questão do preservar e cultivar a saúde. A principal estratégia de promoção de saúde guarda relação íntima com o quanto cada pessoa conhece de si mesma e de quanto o sistema social funciona como promotor deste processo. Basta observar sociedades de países mais desenvolvidos e suas políticas de educação para entender um pouco melhor a relação entre educação e saúde. Conhecer a si mesmo é de fundamental importância para as pessoas que buscam o significado e uma vida saudável e plena na presente existência. O processo de se conhecer é simples, no entanto parte da humanidade atual se afastou ou deixou de dar a importância que ele merece há algum tempo. A conseqüência desta negligência gera uma dificuldade no fluxo natural da vida que se assemelha à do ex-atleta que ao querer voltar a treinar para uma maratona, percebe que seus músculos se atrofiaram em decorrência da falta de um treinamento constante.
Hoje se sabe que o próprio cérebro humano pode ser exercitado e capacitado para uma vida mais plena. Os estudos sobre a neuroplasticidade demonstram claramente como os hábitos de nosso dia a dia influenciam o cérebro, tornando-o mais apto a enfrentar os desafios do cotidiano. Imaginem que uma pessoa vá a uma academia para fortalecer seu corpo, mas por preguiça pede a um amigo que faça os exercícios por ela. Parece óbvio que quem vai ficar mais forte é o amigo e não a pessoa, pois para os benefícios da atividade física surtirem efeitos cada pessoa deve participar da mesma. Ninguém pode se exercitar por nós. Algo semelhante ocorre nos campos emocional e mental. Não existe ainda uma forma de desenvolver habilidades mentais sem que para isto se desenvolva o hábito da leitura. Ainda não se sabe também sobre como desenvolver habilidades emocionais senão a partir de relacionamentos, exercício do perdão e no aprender as sutilezas que existem entre a vontade e o desejo.
Hipócrates, considerado um dos pais da medicina ocidental, já explicava em sua frase célebre que a saúde se fundamenta na forma como a pessoa se alimenta: “Seja o teu alimento o teu medicamento e seja o teu medicamento o teu alimento”. À semelhança da alimentação para o corpo físico, precisamos também de uma alimentação diferente para nosso “corpo emocional” e também de uma terceira para nosso “corpo mental”. Mesmo não vendo estes corpos quando nos olhamos no espelho, podemos percebê-los sem muito esforço e com um pouco de boa vontade. Importante saber que a pessoa que cuida da alimentação para o corpo físico mas não nutre seus outros corpos, também é um ser “desnutrido”.
Claro que a desnutrição protéica (física) é uma realidade e precisa de cuidados médicos, mas uma desnutrição ainda mais grave e que nos passa despercebida é a desnutrição psico-consciencial (“corpos” emocional e mental). O desnutrido mental e emocional é uma pessoa que pode causar muitos danos sociais. Devemos sempre lembrar no entanto, que este tipo comum de desnutrido no nosso meio não tem a mínima consciência do estrago que ele causa. São pessoas que como todos sempre estão tentando fazer seu melhor e dar o melhor de si. No entanto sua formação, cultura familiar e círculo de amizades bem como hábitos do grupo ao qual pertencem, o prepararam para o sucesso pessoal e não para o sucesso social. Desta forma a pessoa aparentemente bem sucedida, alcança este sucesso a partir do prejuízo alheio, sem se dar conta de que este prejuízo no médio e longo prazos se voltará contra ele próprio ou sua prole futuramente.
A alimentação saudável começa no corpo físico quando se observa como a pessoa está se alimentando. A natureza é rica e dispõe de uma infinidade de produtos que podem ser digeridos por nosso organismo. Importante é, no entanto, que tenhamos consciência de qual é o ciclo de todo tipo de substância que colocamos para dentro de nosso corpo, pois estamos participando direta ou indiretamente de todo este processo. Este cuidado pode parecer excessivo mas é a única chance que temos de participar ativamente sobre a ecologia do nosso planeta de forma a preservá-lo e contribuir para seu desenvolvimento. Conhecer o ciclo das substâncias e com gratidão mentalizá-lo durante a alimentação em reverência a todos os seres que participaram desta cadeia é uma atitude religiosa que pode ser praticada em todas as refeições. Naturalmente esta prática nos fará repensar na forma como nos alimentamos e se eventualmente algum sofrimento no percurso do alimento até nossa mesa for detectado ocorrerá uma mudança gradual destes hábitos (Ex: sacrifício de animais, cultura de animais, exploração de trabalho escravo etc.).
Do ponto de vista emocional existem muitos desnutridos que podem se beneficiar de uma alimentação balanceada simples composta de três itens. O primeiro e mais importante alimento para o corpo emocional da pessoa diz respeito aos relacionamentos. A nutrição saudável a partir dos relacionamentos não ocorre de forma semelhante àquela do corpo físico. Para este corpo ficar saudável ele não deve se nutrir como se os relacionamentos fossem para ele, mas como se ele fosse o alimento para todos os seus relacionamentos. Em cada interação a pessoa poderá se oferecer da forma mais adequada ao relacionamento, para que a pessoa com quem ele se relaciona possa se servir.
É disso que Leibniz falava quando dizia: “Quanto mais vivo, mais percebo que aquilo que enche as minhas mãos é o que eu dou com elas e não o que eu pego com elas”. Pode parecer estranho e alguém recear se oferecer desta forma nos relacionamentos, mas isto ocorre devido ao fato de alguns ainda se nutrirem dos outros sem oferecer nada em troca. No entanto a dinâmica do corpo emocional é bastante diferente daquela do corpo físico e não há o que temer, ainda que num primeiro momento algo pareça não ter corrido bem. Diferentemente do corpo físico as experiências neste corpo determinam mudanças no nosso campo de atração experiencial, de forma que lentamente nossos relacionamentos vão ficando mais saudáveis na medida em que ficamos mais desapegados de nós mesmos. Deste modo esta arte em se relacionar não está propriamente ligada à escolha dos relacionamentos, mas em escolher como queremos nos relacionar.
O segundo ponto importante na alimentação emocional diz respeito ao perdão. Perdoar e pedir perdão constituem a parte enzimática da alimentação emocional, ou seja são os ingredientes que ajudam na digestão de alimentos neste corpo. Para que o alimento emocional seja digerido ele precisa ser decomposto em formas assimiláveis sendo neste ponto que entra a função destas “enzimas”. A pessoa que tem dificuldade em perdoar e pedir perdão pode desenvolver lentamente a desnutrição emocional até que faça uma reposição adequada destes “nutrientes”.
Finalmente mas não menos importante é fundamental que a pessoa que busca o equilíbrio emocional consiga perceber a diferença sutil que existe entre seus desejos e suas vontades. As vontades são nosso maior patrimônio e emergem das profundezas da essência maior manifestando-se no mundo físico determinando diferentes vivências. É importante que o canal para esta manifestação não esteja obstruído para que o corpo emocional possa se manter vigoroso. Quanto aos desejos, eles não existem propriamente no interior da pessoa, mas nascem na interação com o mundo ao redor a partir dos relacionamentos. Quando alguém se compara ao outro e percebe não ter algo ou não ser algo que o outro tem ou é, pode passar então a desejar. Deste modo fique claro que o desejo pode se manifestar desde o campo físico (desejar uma roupa ou um carro) até o campo abstrato (desejar ser inteligente ou bonita como outra pessoa).
A vontade é expressão máxima do ser enquanto o desejo ocupa o outro extremo, onde o ser confunde-se com o ter. A vontade não pode ser destruída mas pode ser anestesiada quando se habita um mundo onde o campo de desejos é muito forte. Algumas falanges da mídia representam parte deste campo de desejos no mundo atual e disputam na tentativa de despertar o desejo por consumo de bens materiais, posição social, poder pessoal, exploração sexual e dinheiro que não por acaso andam em grupo. Vontade e desejo são importantes e complementares sendo fundamental que se busque o ponto de equilíbrio onde a vontade possa ser sempre máxima e o desejo seu tempero mas nunca seu senhor.
De maneira geral, muitas pessoas só pensam em melhorar ou se preparar para enfrentar situações de desafio na vida, quando não há mais tempo hábil para tal. A conseqüência deste despreparo é ter que passar por situações de vida que apesar de simples, para aqueles que se prepararam adequadamente, se apresentam como verdadeiros dramas existenciais para os que negligenciam seu desenvolvimento pessoal. Neste sentido, as pessoas que adoecem devem ser encorajadas a perceberem as aflições, problemas e dificuldades como oportunidades que apenas estão tornando visíveis aspectos da vida pessoal antes invisíveis e não solucionados nos campos emocional e mental. Apego e medo são aliados da doença que devem ser trazidos à consciência e abandonados o quanto antes pelas pessoas que buscam uma vida saudável.
Um desafio importante a ser pensado diz respeito à mídia. A televisão, uma das maiores descobertas e conquistas da humanidade, representa uma agência transformadora de dimensões incalculáveis sobre o campo de pensamento desta mesma humanidade. Inacreditavelmente toda esta potência para o despertar no atual momento não está sendo utilizada, e em alguns casos se volta para um propósito anestésico e sedativo além da propagação de notícias de baixa qualidade e pouco impacto na melhora da qualidade de vida do telespectador. Evitar horários “pobres” em conteúdo, cultivar o hábito da leitura e o da audição musical contemplativa são atitudes que favorecem a saúde na dimensão psico-social.
Parte do alimento pobre proporcionado pela televisão hoje se fundamenta no darwinismo social onde a espécie mais “evoluída” devora sua presa e a mastiga frente ao próprio telespectador que não se percebe devorado enquanto planeja como um dia chegar ao topo da cadeia de consumo. Tudo o que é bom não necessita de propaganda pois se auto-sustenta, somente coisas que não são boas precisam da ajuda da propaganda, residindo ai uma sutil armadilha. Não é necessário falar ou mostrar para as pessoas que fizemos algo bom, deixem que as obras falem por si mesmas. Prestemos atenção sempre que alguém queira dizer e mostrar: fiz isto ou aquilo, pois geralmente estão em posição de quem não fez nada mais que a sua obrigação.
Quando vestimos uma camisa sentimos a textura do tecido em nosso corpo pois o sentido do tato identifica o tecido. Com o passar do tempo no entanto deixamos de sentir a camisa, como se nos acostumássemos à sensação do tecido e para senti-lo novamente precisamos atritá-lo ao corpo. Este processo de acomodação não acontece apenas com o tato, mas com todos os nossos sentidos. Desta forma a repetição constante de determinados estímulos podem anestesiar ou sedar nossos sentidos sem que sequer possamos nos dar conta de que isto esteja acontecendo. Este processo de repetição é muito explorado em técnicas conhecidas como subliminaridade, neurolinguística e neuromarketing não apenas para aumentar vendas e promover o consumo de determinados produtos, mas também para conduzir e sugestionar a opinião pública sobre o que é “melhor” para ela.
Houve um tempo em que se avaliava o nível sócio-econômico das pessoas pela quantidade de aparelhos de televisão que elas possuíam em casa. Hoje a quantidade de aparelhos não diz nada sobre o nível sócio-econômico, mas casas com muitos aparelhos sugerem graus variáveis de comprometimento nos níveis cultural e de desenvolvimento pessoal. Facilmente se chega a esta conclusão quando se observa o tamanho do patrimônio histórico-cultural produzido pela humanidade até hoje e se constata que mesmo que dedicássemos a vida toda a ler (livros), apreciar (obras de arte) e escutar (músicas), não haveria tempo hábil para apreciar toda esta riqueza.
Não temos tempo a perder, conforme o poeta do conjunto Tribalista canta “...Não tenho paciência pra televisão / eu não sou audiência para a solidão...”
Os circuitos cerebrais que se ativam quando se vivencia ou se lembra de um determinado acontecimento são os mesmos. A repetição da violência acostuma nossos sentidos de forma que passamos a achar normais situações que não são humanamente aceitáveis. Além disso, assuntos privados pertinentes às vidas de outras pessoas que deveriam ser tratados por órgãos responsáveis invadem casas e permeiam jantares se misturando ao alimento e intoxicando inconscientemente sem nenhuma utilidade ou benefício real. Existem muitas coisas boas acontecendo a todo o momento no mundo todo que superam as coisas ruins, então porque os noticiários do horário “pobre” insistem em só mostrar o que não é bom quando tanta coisa boa poderia estar sendo mostrada?.
A espiritualidade e a saúde são indissociáveis na medida que se percebe a profunda semelhança que os estados de saúde e santidade guardam. Basta observar que o ser saudável é dito são, à semelhança da designação dos santos (Ex: São Tomé, São Miguel). Desta forma é importante adquirir a consciência de que espiritualidade e saúde devem ser praticadas no dia a dia, nas pequenas atitudes dos relacionamentos, forma de alimentação, forma de pensar, enfim estando presente em todos os momentos com lucidez e percebendo em cada escolha uma responsabilidade assumida, fundamento da vida saudável. O corpo é um “templo” e cada um deve cuidar para que de dentro para fora seja criado o melhor campo receptivo possível para influências promotoras de harmonia e saúde. Do mesmo modo este “templo” quando bem trabalhado também servirá como um promotor e emissor de saúde onde quer que esteja.
A fé em sua dimensão horizontal e vertical tem sido vista como uma ferramenta importante na prática da medicina. Na dimensão horizontal a relação de fé se estabelece por exemplo no vínculo de confiança entre o terapeuta e o paciente, enquanto na dimensão vertical o médico pode encorajar o paciente a se religar à espiritualidade cujas energias e consolo associados ao conhecimento técnico e científico tem se mostrado de grande valor. Até algum tempo atrás esta função era cumprida pelo pontífice (do latim construtor de ponte) que atuava construindo a ponte entre o doente e o divino sempre que a doença (expressão da cólera de Deus) se manifestava. Algumas universidades Norte Americanas e mesmo em nosso país já incorporam ao currículo médico a disciplina de medicina e espiritualidade com base em extensa literatura médica facilmente acessível em websites e revistas especializadas.
Há crescentes evidências no campo da psico-neuroimunologia que as emoções positivas e o apoio social são associadas ao melhor funcionamento dos sistemas imunológico e cardiovascular, e que o caminho inverso também é verdade, ou seja, a depressão e o isolamento social pioram a saúde, retardando a recuperação dos pacientes. Em estudo realizado no Centro Médico da Universidade de Duke, com 542 pacientes com idade de 60 anos ou mais, ficou demonstrado que pessoas ligadas a práticas religiosas apresentaram menor tempo de permanência no hospital. Este estudo prospectivo mostrou que pacientes não afiliados a grupos religiosos foram hospitalizados por uma média de vinte e cinco dias, comparado aos onze dias do grupo de pessoas ligadas a alguma tradição religiosa, sugerindo que práticas religiosas estão relacionadas a melhor saúde física e mental além de menor necessidade de utilização de serviços de saúde.
Um importante estudo, feito por Mc Cleland, mostrou a existência de uma relação entre a função imune e a prática espiritual a partir da análise de anticorpos presentes na saliva. Neste estudo 132 estudantes foram divididos em 2 grupos para se avaliar o despertar motivacional sobre a secreção de imunoglobulina A (IgA) salivar. Metade dos estudantes assistiu a um filme sobre a segunda guerra mundial e a outra metade a um sobre o trabalho da Madre Tereza de Calcutá nos subúrbios da Índia. Cada filme foi mostrado duas vezes e cada amostra de assistentes foi analisada separadamente. Os níveis de IgA salivar foram significativamente maiores nas 70 pessoas que assistiram ao filme da madre Tereza, sugerindo um efeito positivo de experiências religiosas sobre o sistema imunológico.
Uma forma construtiva de se encarar a doença é vê-la como um sinalizador de que a harmonia no viver se perdeu, e que o adoecer ocorre no sentido de auxiliar no retorno ao caminho correto. A doença é vista então como oportunidade e não como algo absolutamente inútil que deve ser combatido a qualquer custo. Nesta perspectiva o adoecer está ligado a um processo de expandir a consciência, que o paciente não conseguiu realizar por outra via que não a doença e suas conseqüências. Quanto mais consciente e preparado para passar por transformações com desapego, menos sujeito ao adoecimento a pessoa estaria. Neste sentido a fé, enquanto agente de transformação, poderia ser vista como um “elixir mágico” para uma vida harmoniosa, e no caso dos que adoeceram a fé seria como um dos “medicamentos” auxiliares na restituição do estado de saúde.
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