Ester Garcia


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AFINAL O QUE É HUMANIZAÇÃO ?


O que é o humano?

O humano é o efeito da combinação de três elementos: a materialidade do corpo, a imagem do corpo e a palavra que se inscreve no corpo.

O que diferencia o ser humano da natureza e dos animais é que seu corpo biológico é capturado desde o início, numa rede de imagens e palavras, apresentados primeiro pela mãe, depois pelos familiares e em seguida pelo social. É esse ‘banho’ de imagens e de linguagens que vai moldando o desenvolvimento do corpo biológico, transformando-o num ser humano, com um estilo de funcionamento e modo de ser, singulares. Em função da dinâmica de combinação desses três elementos, somos capazes de transformar imagens em obras de arte, palavras em poesia e literatura e sons em fala e música, ignorância em saber e ciência. Somos capazes de produzir cultura e a partir dela, intervir e modificar a natureza. Exemplo, transformando doença em saúde.

Entretanto, acontece que a palavra pode fracassar e onde a palavra fracassa somos capazes também das maiores barbáries.

A destrutividade faz parte do humano e a história testemunha a que ponto é capaz de chegar. O homem se torna lobo do homem. Passa-se a utilizar tudo quanto sabemos em nome de destruir aos humanos que consideramos diferentes de nós e por isso mesmo achamos que constituem uma ameaça a ser eliminada.

Essa destrutividade pode se manifestar em muitos níveis e intensidades, indo desde um “não olhar no rosto e não dar - bom dia”, até o ato de violência mais cruel e mortífero.

Então, o que é humanizar?

Entendido assim, humanizar é garantir à palavra a sua dignidade ética. Ou seja, o sofrimento humano, as percepções de dor ou de prazer no corpo, para serem humanizados, carece que as palavras com que o sujeito as expressa sejam reconhecidas pelo outro, quanto esse sujeito precisa ouvir do outro, palavras de seu reconhecimento.

A humanização depende de nossa capacidade de falar e ouvir, pois as coisas do mundo só se tornam humanas quando passam pelo diálogo com nossos semelhantes.

Pela linguagem fazemos as descobertas de meios pessoais de comunicação com o outro, sem o que..nos..desumanizamos..reciprocamente. Isto é, sem comunicação não há humanização (Caponi, 2002).

O compromisso com a pessoa que sofre pode ter basicamente três, ou quatro, tipos de motivação. Pode resultar do sentimento de compaixão piedosa por quem sofre, ou da idéia de que assim contribuímos para o bem comum e para o bem-estar em geral. Pode resultar também, da paixão pela investigação científica, que se funda sobre o ideal de uma pura “objetividade”, com a exclusão de tudo quanto lembre a subjetividade.

Um terceiro tipo de motivação pode advir da solidariedade genuína. Cada uma dessas motivações tem conseqüências distintas no que diz respeito à humanização. É interessante se observar que no transcurso do século XIX as três estratégias de políticas de assistência à saúde que predominaram são aquelas fundadas na ética da compaixão piedosa, no utilitarismo clássico de Bentham e Stuart Mill e no discurso tecno-científico, sendo que existe uma complementaridade entre essas três estratégias.

A saúde passa a ser valorizada como um bem acima de qualquer discussão, justificando assim formas coercitivas de controle social em nome da utilidade e da felicidade do maior número, da piedade compassiva pelos que sofrem e do condicionamento de comportamentos considerados mais saudáveis pelo saber médico científico higienista do momento.

É preciso ressaltar aqui que a capacidade de cuidar, assistir e aliviar o sofrimento em saúde pública, por exemplo, não implica necessariamente que a assistência seja uma intromissão..coercitiva.

A utopia da saúde perfeita surge de forma clara na própria definição da saúde proposto pela OMS em 1948, como sendo o “estado de completo bem-estar físico, mental e social, não meramente a ausência de doença ou enfermidade.” Essa definição tem o mérito de ampliar o escopo de um modelo estritamente biomédico de saúde como presença/ausência da doença ou enfermidade enquanto desvio da normalidade causada por uma etiologia específica e única, tratada pela suposta neutralidade científica da ciência médica. A lógica da compaixão piedosa, por sua vez, compõe um jogo perverso e desumanizante, difícil de evidenciar, pois é uma prática muito arraigada em nossa sociedade ocidental, tendo como figura principal no século passado a ‘dama de caridade’, que tinha um estatuto de benfeitora divina em função de seus atos de ofertar esmola e filantropia. O aspecto desumanizante da compaixão piedosa está no fato de que ela faz das diferenças o fundamento para relações dissimétricas que ela institui entre o benfeitor e o assistido.

Essa lógica instaura um exercício de poder de coerção e submissão sob um discurso de humanismo desapaixonado e desinteressado, gerando, além da obediência e da dependência, uma sensação de dívida e gratidão eternas pela caridade recebida.

Caponi, na obra “Da Compaixão a Solidariedade”, ressalta que no ato de compaixão existe uma sutil defesa de nós mesmos, no sentido de nos libertarmos de um sentimento de dor que é nosso, pois o contratempo sofrido pelo outro nos faz sentir impotência, caso não corramos em socorro da vítima, e o temor de que o infortúnio possa nos acontecer.

Ou seja, no ato de compaixão não estamos sendo completamente generosos e desinteressados, pois estamos indo, na verdade e em primeiro lugar, em socorro de nós mesmos. É por isso que no sentimento de compaixão, segundo Nietzsche, a dor alheia é despojada do que ela tem de pessoal, de singular e irredutível, pois o compassivo julga o destino sem se preocupar em saber nada sobre as conseqüências e complicações interiores que o infortúnio tem para o outro. Ou seja, quando realizamos atos de caridade, agimos impulsionados pelo júbilo sádico provocado pelo espetáculo de uma situação, masoquista, oposta à nossa.

O problema da compaixão, quando se amplia e passa a fundamentar políticas de assistência, segundo Caponi (2000), é que ela permanece alheia ao diálogo e exclui a argumentação, pretendendo superar uma necessidade, que muitas vezes é urgente, pela força do imediatismo. Outra forma de motivação do compromisso com a pessoa que sofre é fornecida pelo utilitarismo, que faz da procura da maior felicidade para o maior número a medida para todos os atos. Ou seja, um ato é correto se produz as melhores conseqüências para o bem-estar humano. Acredita-se no utilitarismo que o prazer ou bem-estar de um sujeito pode ser medido e comparado com o de outro. Como na cultura do individualismo a felicidade coletiva só pode ser pensada como a soma das felicidades individuais, o problema passa a ser como fazer com que a procura da felicidade individual possa ser integrada nessa felicidade coletiva.

A solução passou a ser criar instituições de controle capazes de controlar e regulamentar as condutas dos indivíduos e dentre estas instituições está o hospital, além dos reformatórios, presídios, asilos. Nesse sentido, as instituições de assistência pública de saúde se fundamentam há dois séculos pelos critérios de bem-estar geral, urgência social e de felicidade e interesse comuns. E suas ações, campanhas e programas partem das certezas de que sempre atuam em nome e pelo bem daqueles a quem pretendem ajudar, sendo que supõe conhecer esse bem de um modo claro e distinto, sem necessidade de consultar antes aos “beneficiados”.

Uma política de assistência fundamentada sobre esses pressupostos prescinde de argumentos, exclui a palavra e emudece qualquer diálogo. Tanto a ética utilitarista, quanto a ética compassiva são, por si só, desumanizantes pelo fato de colocarem os princípios acima dos sujeitos envolvidos, banindo as decisões tomadas coletivamente com base no diálogo e argumentação, pois essas éticas consideram que os princípios religiosos ou de utilidade geral são os únicos que podem determinar de antemão, o que dever ser levado em consideração e feito.

Uma terceira motivação de compromisso com a pessoa que sofre é trazida pelo discurso tecno-científico e a paixão que a suposição de objetividade e neutralidade da ciência desperta no homem moderno.

O desenvolvimento científico e tecnológico tem trazido uma série de benefícios, sem dúvida, mas tem como efeito colateral uma inadvertida promoção da desumanização. O preço pago pela suposta objetividade da ciência é a eliminação da condição humana da palavra, que não pode ser reduzida à mera informação de anamnese, por exemplo. Quando é preenchida uma ficha de histórico clínico, pode não estar sendo escutando a palavra daquela pessoa e sim apenas recolhendo a informação necessária para o ato técnico. Indispensável, sem dúvida. Mas o lado humano ficou de fora. O ato técnico, por definição, elimina a dignidade ética da palavra, pois esta é necessariamente pessoal, subjetiva, e precisa do reconhecimento na palavra do outro. A dimensão desumanizante da ciência e tecnologia se dá, portanto, na medida em que ficamos reduzidos a objetos de nossa própria técnica e objetos despersonalizados de uma investigação que se propõe fria e objetiva (Sfez, 1996). Um hospital pode ser nota dez tecnologicamente e mesmo assim ser desumano no atendimento, por tratar às pessoas como se fossem simples objetos de sua intervenção técnica, sem serem ouvidas em suas angústias, temores e expectativas (informação considerada desnecessária e perda de um tempo precioso).

Ou, sequer informadas sobre o que está sendo feito com elas(o saber técnico supõe saber qual é o bem de seu paciente independentemente de sua opinião).
Por outro lado, o problema em muitos locais é justamente a falta de condições técnicas, seja de capacitação, seja de materiais, e torna-se desumanizante pela má qualidade resultante no atendimento e sua baixa resolubilidade. Essa falta de condições técnicas e materiais também podem induzir à desumanização, mas não justifica esse procedimento, considerando que, se profissionais e usuários se relacionem de forma desrespeitosa, impessoal e agressiva, piorará uma situação que já é precária.

É importante lembrar, com o poeta, que mesmo em tempo ruim, a gente ainda dá bom dia! Sempre podemos nos questionar diante de circunstâncias adversas a respeito do que podemos fazer mesmo assim para melhorar.
Uma quarta motivação para o compromisso com quem está em sofrimento é propiciada pela solidariedade. A solidariedade abre uma perspectiva de humanização, pois ela somente se realiza quando a dimensão ética da palavra está colocada.

Nesse sentido, segundo Caponi, a solidariedade implica uma preocupação por universalizar a dignidade humana, que precisa da mediação das palavras faladas e trocadas no diálogo com o outro para poder generalizar-se. Como uma relação autêntica com o outro implica um mínimo de alteridade e aceitação da pluralidade humana como algo irredutível, o laço social humanizante somente se constrói pela mediação da palavra.
É somente pela mediação da palavra trocada com o outro que podemos tornar inteligíveis nossos próprios pensamentos, anseios, temores e sofrimentos. Nossos sentimentos e sensibilidades só tomam forma e expressão na relação simbólica com o outro. Enfim, as coisas do mundo se tornam humanas quando as discutimos com nossos semelhantes.
Nesse sentido, humanizar a assistência hospitalar implica dar ouvidos tanto à palavra do paciente quanto à palavra dos profissionais da saúde, de forma que possam estabelecer uma rede de diálogo, que pense e promova ações preventivas e ou curativas, a partir da ética da palavra, do respeito, do reconhecimento mútuo, solidariedade e de amor.

HUMANIDADE E HUMANIZAÇÃO:

As palavras não existem desde sempre nem para sempre. Elas “nascem”, “crescem”, “envelhecem”, “morrem” ou desaparecem, e as línguas também, permanecem somente as pessoas.

Como é sabido, todas as palavras têm muitos sentidos. Essa variedade não depende apenas dos significados que o dicionário lhes atribui com relação às coisas que designam (semântica). Também tem a ver com o enunciado ou frase, ou com o discurso, ou com o texto todo no qual estão incluídas e onde entram em relação com as outras palavras (sintática). Mas, principalmente, as palavras se caracterizam pelo seu “uso”, ou seja: por quem as pronuncia, onde, quando, para quem, para que, como, quantos são ditas, assim como de quais outras modalidades de expressão semiótica são acompanhadas (pragmática).

Para uma análise reveladora dos sentidos das palavras Humanidade e Humanização, na Filosofia, na Ética na Linguagem e na Clínica, veja-se o artigo “Um projeto de Humanização: para que, para quem?” É claro que, ademais, as palavras mudam totalmente de sentido se a especificidade de seu “contexto” é filosófico, científico, literário, político, religioso ou mitológico, popular, ou seja, pelo "gênero" do texto ou discurso que integram.

As palavras não existem desde sempre nem para sempre. Elas “nascem”, “crescem”, “envelhecem”, “morrem” ou desaparecem, e as Línguas também.

Antes de concluir, devemos reconhecer que o propósito ou meta de Humanizar, em todos os sentidos apontados, mais no caso da saúde, implica aceitar e reconhecer que nessa área e nas suas práticas em especial, subsistem sérios defeitos e carências de muitas das condições exigidas pela definição da concepção, organização e implementação do cuidado da saúde da Humanidade, tanto por parte dos organismos e práticas estatais, como dos da Sociedade Civil.
Se os hospitais começaram sendo “derivados” dos cárceres, dos abrigos para indigentes e de espaços de clausura e isolamento para enfermos de doenças epidêmicas incuráveis, estabelecimentos estes nos quais o trato correspondia a uma intenção de castigo, eliminação ou segregação social, os Hospitais “modernos” correm o perigo de se tornarem equipamentos de controle social sobre “grupos de risco”, para a identificação e manipulação das “minorias” excluídas, marginalizadas, desinseridas, desfiliadas, que ameaçam a ordem instituída dominante e as pessoas dos seus proprietários e beneficiários.

Se tivéssemos que resumir a missão de humanização num sentido amplo, além da melhora do trato intersubjetivo, diríamos que se trata de incentivar, por todos os meios possíveis, a união e colaboração transdisciplinar dos técnicos e funcionários assim como a organização para a participação ativa e militante dos usuários nos processos de prevenção, cura e reabilitação.
Humanizar não é apenas "amenizar" a convivência hospitalar, senão, uma grande ocasião para organizar- se na luta contra a inumanidade, quaisquer que seja a forma que a mesma adote.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA PARA A INVESTIGAÇÃO DO TEMA SELECIONADO:

WALDOW, V.; Cuidado Humano o Resgate Necessário. 2ª ed., Sagra. Porto Alegre. RS(2004).
GARCIA, Ester.; Marketing na Saúde Humanismo e Lucratividade.: AB Editora. Goiânia: GO. 2005.
PESSINI, l. Humanização da dor e sofrimento humanos no contexto hospitalar. Bioética, 2002, vol.10, n.2, p.51-53.
RIBEIRO, H.; O Hospital e a crise. 1ª ed. Makron: São Paulo, 1993.
Maturana H y Verden-Zöller G 1997. Amor y juego – fundamentos olvidados de lo humano. Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, Santiago de Chile.
MATURANA e VARELA. Árvore do Conhecimento – As bases biológicas da compreensão humana. Ed. Pallas – 2002.
CAPONI, S. Da Compaixão à Solidariedade – uma genealogia da assistência medica. Rio de Janeiro, Ed. Fiocruz, 2000.
SFEZ, L. A Saúde Perfeita. São Paulo, Ed. Loyola, 1996.
DUMONT, L. O Individualismo. Rio de Janeiro, Rocco, 1981.

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