Ester Garcia


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Os troféus da idade da maturidade

Um dia desses, ao fazer minha caminhada diária pelo parque, dei um bom dia a um idoso que vinha cabisbaixo. Ele não esperava o cumprimento, pois surpreso, sorriu. Fiquei pensando: que história de vida estaria por trás daquele rosto enrugado? Quantas lembranças lhe vinham a mente naquele instante? Fiquei a refletir, sobre a trajetória percorrida por aquele Ser, hoje curvado pela ergometria da vida.

O indivíduo, ao longo de sua existência, vivencia e estabelece um ciclo variado de contatos com a chamada “realidade da vida”, que traz em seu bojo os mais variados matizes. A pessoa adulta, obrigatoriamente, terá toda uma bagagem de experiências, quer de natureza prática, acadêmica ou vivencial, que é o seu legado intransferível e indelegável.

“Aos 60 anos, a experiência dessa pessoa será inigualável. Aos 70 anos será um sábio. Uma fonte de ensinamentos. Um manancial de conhecimentos. Um pós-graduado em paciência. Um doutor em compreensão. Um mestre com MBA da vida – habilidades e competências que nenhuma instituição de ensino pública ou privada, nacional ou estrangeira, poderá lhe ensinar”.

O que há de irônico nessa história toda é que, depois de tantos anos de lutas e vivências, uma verdadeira epopéia existencial, esse sábio é um anônimo e a sociedade não lhe dá o menor espaço para ocupar seu próprio espaço – um direito adquirido ao longo da vida. A começar no mercado de trabalho, onde grande parte das empresas dá mostras diárias de considerá-lo um “inútil”.

É o único ser vivo que consegue ser um ausente mesmo estando presente. O que grande parte das pessoas parece não saber que a perda de neurônios, numa trajetória de vida de 80 anos, é de aproximadamente, 1,5%, e mesmo assim, os remanescentes, assumem com galhardia todas as funções desempenhadas pelas células nervosas. Assim também é a memória, as lembranças, o aprendizado e as experiências. Não há como voltar atrás, como regredir. Está tudo guardado na mente do sábio, como se fora num cofre. Basta alguém dar uma volta na chave que poderá abrir esse cofre. E isso é tão simples... Essa chave se chama “oportunidade”.

O idoso não quer pena, nem compaixão. Quer a mesma coisa que todos nós, crianças, jovens e adultos também queremos: atenção, carinho, respeito e uma chance que seja, para poder demonstrar sua capacidade de ser útil e produtivo. Lamento muito por aqueles que, desprovidos de lucidez, sensibilidade e visão de mercado, se recusam a dar o primeiro passo em direção ao cofre (mente do idoso) para abri-lo. Tal gesto de ousadia e coragem, além de quebrar paradigmas, fará justiça e resgatará a dignidade deste idoso. Muitas vezes, reintegrá-lo ao trabalho e à sociedade é devolvê-lo à vida – Vida com “sabor” de Vida.

É necessário lembrar que, o tempo é implacável e não tem a menor discriminação: chega para todos. Portanto, também chegará amanhã para os insensíveis de hoje. Ao invés de fechar as portas para candidatos com mais de 40 ou 50 anos de idade, as empresas deveriam dar o passo inicial, não por piedade ou benemerência, mas conscientes que terão muito a aprender com esses sábios de “ontem” e esquecidos de “hoje”.

Em especial, aprender que este segmento que denominam “terceira idade” consome e participa com 19% da renda brasileira, porém, continua alijada do processo de consumo, pela maior parte das empresas, que, por razões culturais, julgam que os idosos não necessitam ser estimulados à soberba do consumo, no entanto, na maioria das vezes, são eles os detentores do capital financeiro nas famílias, conforme dados do IBGE, dezembro/2004.

Concluo, dizendo que as corporações têm os seus cofres em que guardam o que consideram ser mais valioso para proteger: uma equipe de executivos jovens, talentosos e brilhantes.

Não está sendo posto em questionamento a competência destes, no entanto, é inegável que esses ricos e brilhantes cofres perdem de goleada, quando os valores em jogo são a sensibilidade, a fraternidade, o reconhecimento, o amor e o respeito ao ser humano. Se esses valores de nada valem para uma sociedade, o que vale então?

EDA – Lei nº. 9610/98 © ESTER GARCIA



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